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quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Pobres

    Eu não tenho nada contra pobres, até tenho amigos que são. O que eu não gosto é de os ver a contar os tostões para pagar a conta do supermercado, não gosto que estejam sempre a falar de dinheiro, sempre a pensar como vão manter um teto sobre a cabeça e como vão chegar ao final do mês sem passar fome. Convenhamos que às vezes são pessoas muito desagradáveis porque só sabem falar em dinheiro, desde janeiro até dezembro, e nunca estão satisfeitos.
    Em janeiro são os aumentos, que têm de ser maiores que a inflação porque aqui del-rei que o que conta é o salário real. Não basta serem pobres e ainda têm de perceber de finanças. Em abril já andam malucos para saber quanto vão receber de IRS: em princípio não vão receber nada porque quem não ganha o suficiente para fazer descontos para IRS também não recebe reembolso. Pensei que percebiam de finanças. Em junho querem receber o subsídio de férias, é outra coisa que não se percebe. Para quê tanta coisa com o subsídio de férias se depois passam as férias em casa? Em setembro andam de novo aflitos com o custo dos manuais escolares, uma loucura sem igual, qualquer dia querem outro subsídio em setembro porque isto é malta que pensa que o patrão tem obrigação de sustentar os filhos daquela malta toda. É que não sei se já perceberam, mas em Portugal há mesmo muitos pobres. Não fossem os apoios sociais e quase 50% da população seria pobre. No final do ano lá estão os pobres preocupados com o subsídio de natal, mas pronto, neste caso até parece que celebram o natal. Não sei se trocam prendas, mas parece que se reúnem para comer bacalhau com batatas, muito provavelmente fazem-no ao frio porque, diz-se, 20% dos portugueses não têm dinheiro para aquecer a casa. 

    Em janeiro do ano seguinte recomeça a choradeira dos aumentos, devem querer deixar o patrão pobre como eles.


quinta-feira, 19 de agosto de 2021

TANTOS DESCONTOS!

 

Se há coisa que me deixa perplexo é ouvir pessoas que se queixam que descontam muito dinheiro no ordenado. “Não sei se vale a pena trabalhar aquelas horas-extra, vai tudo para descontos.”; “Vou receber um aumento, mas a maior parte vai para descontos.” Às vezes também me informam que descontam imenso dinheiro, para indiretamente me dizerem que ganham bem. Gosto.

O que ninguém me diz é que está disposto a prescindir do seu direito a baixa médica remunerada, a subsídio de desemprego e à pensão de reforma, para poder poupar os 11% de desconto da segurança social. Aliás, em bom rigor, teria de dizer que está disposto a sustentar os avós que ficariam sem a reforma que já têm. Devia ficar mais barato, certamente.

Os descontos para IRS, que faz todo aquele que ganhe um pouquinho mais que o ordenado mínimo, também são um ultraje já que servem apenas para financiar tudo aquilo que distingue a civilização da selva. Juntamente com o IVA e alguns outros impostos, taxas e taxinhas, o imposto sobre o rendimento serve para pagar escolas, hospitais, polícia, tribunais, obras públicas, etc, etc, – tudo coisas que eu poderia pagar do meu bolso se não descontasse tanto dinheiro no fim do mês.

O que é mais maravilhoso ainda é que eu não ouço ninguém dizer que pagou muito IVA ao comprar o novo telemóvel. Isso é muito engraçado porque o imposto sobre o consumo (IVA) é muito mais injusto que o imposto sobre o rendimento. Se no IRS paga uma taxa mais elevada quem ganha mais, no IVA pagamos todos a mesma taxa. Será que custa mais ao Jorge Jesus (que ganha €4 milhões/ano) pagar 48% de imposto em sede de IRS, ou ao Sr. Benjamim (que ganha €25 mil/ano) que é professor e paga 37%? No IVA o JJ e o Sr. Benjamim pagam o mesmo, deve ser mais justo. (Sim, eu sei que as taxas que apresento são as marginais.)

Reconheço que Portugal tem enormes injustiças na cobrança de impostos, desde logo um nível demasiado elevado de imposto para rendimentos médios, mas isso não é motivo para diabolizar uma coisa que é indispensável a quem queira viver num país digno e decente – um sistema progressivo de redistribuição de rendimento. O sistema não é perfeito, mas tem funções imprescindíveis e pode ser reformado (sim, nem todas as reformas estruturais precisam de ser para privatizar serviços públicos). Por exemplo, a taxa liberatória para rendimentos do capital (28%) é mais baixa que para certos rendimentos do trabalho, o que é moralmente injusto e economicamente estúpido, isso deve ser alterado. Muita coisa deve ser alterada.

Mas imaginemos que se decide que a melhor maneira de tornar o sistema justo é acabar com os malditos descontos no ordenado. Imaginemos um dia na vida do Sr. Benjamim nesse admirável mundo novo.

Às sete da manhã o Sr. Benjamim acorda cheio de energia, toma banho, come os cereais e enfia-se no seu carro novo – comprou-o com o dinheiro que agora lhe sobra – em direção à escola. Pelo caminho, o senhor Benjamim dá-se por satisfeito por ter escolhido um todo-terreno, já que a estrada está cheia de buracos. Uns minutos mais tarde, o senhor Benjamim repara que cada vez há mais carros na estrada, o trânsito é insuportável e os transportes públicos são poucos e caros. “Malditos políticos, o que fazem com o dinheiro dos meus impostos?”, diz o senhor Benjamim, sem se lembrar que votou para acabar com os descontos. Até aqui tudo normal.

Chegado à escola (que agora é privada e, portanto, extremamente bem gerida), o professor recebe a notícia que terão de dispensar a sua colaboração porque a administração precisa cortar custos com pessoal para fazer obras no edifício. Felizmente o senhor Benjamim é um homem prevenido e tinha feito um seguro de desemprego, coisa muito mais barata que os 11% da segurança social, e nos próximos 6 meses manterá algum rendimento.

Uma vez que ficou subitamente com a agenda vazia, o professor Benjamim decide ir visitar os pais. Uma vez em casa dos progenitores, estes lembram-lhe que ainda não lhes deu a mesada este mês, ao contrário do irmão. Os anciãos precisam de medicamentos e estes estão caríssimos desde que o Estado deixou de cobrar IRS - não se percebe. Perante a situação, o professor abstém-se de falar da sua situação laboral, para não inquietar ainda mais os velhotes.

No resto do dia o professor visita umas agências de emprego, vai ao supermercado e ao mediador de seguros. Corre tudo dentro da normalidade e, surpreendentemente, o seguro de desemprego cobria a sua situação de desemprego.

Ao chegar a casa, depara com a porta arrombada e percebe que resta pouca coisa do recheio da casa, felizmente a esposa e os filhos não estavam em casa na hora do assalto. Assim que coloca as ideias no lugar, Benjamim liga à polícia que o informa que, se ninguém está ferido, terão de registar a ocorrência por telefone (contenção de despesa). “Malditos devem estar na esquadra a jogar às cartas”, pensa o professor desempregado.

Foi um belo dia. Olha, ao menos o Benjamim tem muito dinheirinho no bolso. E não precisou de ir ao hospital.

Nesse dia o Jorge Jesus não teve nenhum problema porque vive na zona rica da cidade, juntamente com os outros milionários.

Pobres

     Eu não tenho nada contra pobres, até tenho amigos que são. O que eu não gosto é de os ver a contar os tostões para pagar a conta do sup...