Em janeiro do ano seguinte recomeça a choradeira dos aumentos, devem querer deixar o patrão pobre como eles.
quinta-feira, 28 de setembro de 2023
Pobres
quinta-feira, 19 de agosto de 2021
TANTOS DESCONTOS!
Se há coisa que
me deixa perplexo é ouvir pessoas que se queixam que descontam muito dinheiro
no ordenado. “Não sei se vale a pena trabalhar aquelas horas-extra, vai tudo
para descontos.”; “Vou receber um aumento, mas a maior parte vai para
descontos.” Às vezes também me informam que descontam imenso dinheiro, para
indiretamente me dizerem que ganham bem. Gosto.
O que ninguém me
diz é que está disposto a prescindir do seu direito a baixa médica remunerada,
a subsídio de desemprego e à pensão de reforma, para poder poupar os 11% de
desconto da segurança social. Aliás, em bom rigor, teria de dizer que está
disposto a sustentar os avós que ficariam sem a reforma que já têm. Devia ficar
mais barato, certamente.
Os descontos
para IRS, que faz todo aquele que ganhe um pouquinho mais que o ordenado
mínimo, também são um ultraje já que servem apenas para financiar tudo aquilo
que distingue a civilização da selva. Juntamente com o IVA e alguns outros
impostos, taxas e taxinhas, o imposto sobre o rendimento serve para pagar
escolas, hospitais, polícia, tribunais, obras públicas, etc, etc, – tudo coisas
que eu poderia pagar do meu bolso se não descontasse tanto dinheiro no fim do
mês.
O que é mais
maravilhoso ainda é que eu não ouço ninguém dizer que pagou muito IVA ao
comprar o novo telemóvel. Isso é muito engraçado porque o imposto sobre o
consumo (IVA) é muito mais injusto que o imposto sobre o rendimento. Se no IRS
paga uma taxa mais elevada quem ganha mais, no IVA pagamos todos a mesma taxa.
Será que custa mais ao Jorge Jesus (que ganha €4 milhões/ano) pagar 48% de
imposto em sede de IRS, ou ao Sr. Benjamim (que ganha €25 mil/ano) que é
professor e paga 37%? No IVA o JJ e o Sr. Benjamim pagam o mesmo, deve ser mais
justo. (Sim, eu sei que as taxas que apresento são as marginais.)
Reconheço que
Portugal tem enormes injustiças na cobrança de impostos, desde logo um nível
demasiado elevado de imposto para rendimentos médios, mas isso não é motivo
para diabolizar uma coisa que é indispensável a quem queira viver num país
digno e decente – um sistema progressivo de redistribuição de rendimento. O
sistema não é perfeito, mas tem funções imprescindíveis e pode ser reformado
(sim, nem todas as reformas estruturais precisam de ser para privatizar
serviços públicos). Por exemplo, a taxa liberatória para rendimentos do capital
(28%) é mais baixa que para certos rendimentos do trabalho, o que é moralmente
injusto e economicamente estúpido, isso deve ser alterado. Muita coisa deve ser
alterada.
Mas imaginemos
que se decide que a melhor maneira de tornar o sistema justo é acabar com os
malditos descontos no ordenado. Imaginemos um dia na vida do Sr. Benjamim nesse
admirável mundo novo.
Às sete da manhã
o Sr. Benjamim acorda cheio de energia, toma banho, come os cereais e enfia-se
no seu carro novo – comprou-o com o dinheiro que agora lhe sobra – em direção
à escola. Pelo caminho, o senhor Benjamim dá-se por satisfeito por ter
escolhido um todo-terreno, já que a estrada está cheia de buracos. Uns minutos
mais tarde, o senhor Benjamim repara que cada vez há mais carros na estrada, o
trânsito é insuportável e os transportes públicos são poucos e caros. “Malditos
políticos, o que fazem com o dinheiro dos meus impostos?”, diz o senhor
Benjamim, sem se lembrar que votou para acabar com os descontos. Até aqui tudo
normal.
Chegado à escola
(que agora é privada e, portanto, extremamente bem gerida), o professor recebe
a notícia que terão de dispensar a sua colaboração porque a
administração precisa cortar custos com pessoal para fazer obras no edifício.
Felizmente o senhor Benjamim é um homem prevenido e tinha feito um seguro de
desemprego, coisa muito mais barata que os 11% da segurança social, e nos
próximos 6 meses manterá algum rendimento.
Uma vez que
ficou subitamente com a agenda vazia, o professor Benjamim decide ir visitar os
pais. Uma vez em casa dos progenitores, estes lembram-lhe que ainda não lhes
deu a mesada este mês, ao contrário do irmão. Os anciãos precisam de
medicamentos e estes estão caríssimos desde que o Estado deixou de cobrar IRS - não se percebe. Perante a situação, o professor abstém-se de falar da sua
situação laboral, para não inquietar ainda mais os velhotes.
No resto do dia
o professor visita umas agências de emprego, vai ao supermercado e ao mediador
de seguros. Corre tudo dentro da normalidade e, surpreendentemente, o seguro de
desemprego cobria a sua situação de desemprego.
Ao chegar a
casa, depara com a porta arrombada e percebe que resta pouca coisa do recheio
da casa, felizmente a esposa e os filhos não estavam em casa na hora do
assalto. Assim que coloca as ideias no lugar, Benjamim liga à polícia que o
informa que, se ninguém está ferido, terão de registar a ocorrência por
telefone (contenção de despesa). “Malditos devem estar na esquadra a jogar às
cartas”, pensa o professor desempregado.
Foi um belo dia.
Olha, ao menos o Benjamim tem muito dinheirinho no bolso. E não precisou de ir
ao hospital.
Nesse dia o
Jorge Jesus não teve nenhum problema porque vive na zona rica da cidade,
juntamente com os outros milionários.
Pobres
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