Já entramos na
terceira década do século XXI e a avaliação através de exame final continua a
ser muito apreciada nas universidades portuguesas, tanto por estudantes quanto
por professores, sobretudo na área de humanidades. De facto, este método
permite ao estudante levar a cabo um dos seus desportos favoritos – a
procrastinação – e ao professor permite salvar a natureza, reciclando exames de
anos anteriores.
A escolha desta
forma de avaliação manifesta-se no decorrer do semestre. Na melhor das
hipóteses, o docente leva uma apresentação PowerPoint (preparada com uma
antecedência mínima de 5 anos) e dedica-se a discorrer sobre temas que domina,
ao mesmo tempo que faz apartes jocosos relativamente à atualidade política, de
preferência salientando o quão ignorante é o ministro e quão douto é o
professor. Na pior das hipóteses, o professor doutor leva consigo umas folhas
de papel A5 envelhecidas em cascos de carvalho e começa a lê-las em voz alta,
na mais perfeita cadência, ao mesmo tempo que faz apartes jocosos sobre a
atualidade política e demonstra como é grande a sua sapiência, comparada com a
daqueles que nos governam.
Do lado do
discípulo, a coisa também corre de feição. Na primeira aula, perguntará se o
professor pode enviar o PowerPoint por correio eletrónico, assim dispensa-se de
tirar apontamentos, coisa que o poderia distrair do seu dever primordial: organizar
a praxe e sobreviver à praxe. No caso improvável de o mestre se recusar a
fornecer o precioso ficheiro ou se este ainda não tiver sucumbido esse
instrumento do demónio – o computador –, então o esforçado jovem será forçado a
ir à associação de estudantes ver se se pode arranjar apontamentos de antigos
camaradas. A associação de estudantes não lhe falhará e, em princípio, os
apontamentos não terão muitos erros, apenas a soma dos lapsos do professor com
os equívocos do aluno (se os apontamentos já forem, eles próprios, de segunda
mão, então deve-se elevar o resultado ao quadrado).
Quanto à lição,
nós sabemos que não se alterou, afinal se há coisa que é imutável é a ciência.
Já que se deu ao trabalho de ir até à associação, o estudante também leva os
exames de anos anteriores para assim poder preparar o seu estudo: se for
conservador preparará todas as questões, se for mais arrojado arriscará
preparar apenas algumas, sabendo que ainda tem a época de recurso.
Finalmente chega
o final do semestre, para o docente a operação é simples – basta tirar um exame
do baú –, para o discente é aqui que a coisa aperta. O jovem estudante achou
que uma semana bastava para devorar todo o conhecimento da cadeira. Deglutiu a
matéria, mas não digeriu bem, por isso vomita tudo na folha de exame sem
qualquer critério, passando assim a bola para o velho mestre. Agora cabe ao
professor decidir se despejar na folha de exame uma caterva de palavras
vagamente relacionadas com o que foi perguntado é suficiente ou se é melhor
repetir o suplício. Sabemos o que é melhor para os dois.
No fim de tudo,
e sobretudo se o jovem decidir que não vale a pena fazer um mestrado (não é que
não haja quem se atreva a fazer avaliações por exame no mestrado, mas pronto),
teremos o prazer de conviver e trabalhar com um Dr. que possui uns pedacinhos
de ciência a boiar em álcool e na mulher gorda. Claro que a culpa é exclusivamente
do processo de Bolonha.