Não há ninguém em
Portugal que nunca tenha ouvido esta frase, ou variantes da mesma. Afinal de
contas, fomos o primeiro país do mundo a abolir a escravatura, não é? Não, não
é bem isso. Em 1761 é emitido um alvará que declara livres todos os escravos
que chegassem a Portugal, mas não liberta os escravos que já estavam no
território nem os filhos que estes pudessem vir a ter. Além disso, nas colónias
a escravatura continuou pujante por muito tempo, sendo abolida apenas em 1869,
62 anos depois da Inglaterra. E para provar a simpatia do povo lusitano
enquanto colonizador, mantivemos os trabalhos forçados nas colónias até ao ano
da graça de 1961. Realmente, a nossa colonização era mesmo boazinha, somos uns
heróis dos direitos humanos.
“Quer dizer, pode haver
algum racismo, mas não é nada como nos Estados Unidos”. Nos Estados Unidos
discute-se o racismo e combate-se o racismo, parece-me que ao reconhecer a sua
existência eles estão um passo à nossa frente. Talvez seja esse o problema: o
povo português tem poucas oportunidades de expressar o seu racismo, há poucos
negros em Portugal e vivem sobretudo na grande Lisboa. O resto do país tem de
se entreter a inventar histórias sobre chineses canibais, sobre ciganos ladrões
e pouco mais. No início do milénio ainda houve a esperança de se poder odiar os
ucranianos – mais escolarizados que nós –, mas parece que esses mudaram de
ideias em relação a vir para Portugal (o assassinato de Ihor Homeniuk – que
obviamente é um caso isolado porque, na maioria dos casos, os espancamentos não
resultam em morte – só veio confirmar que é melhor escolher outro destino). Depois
houve a hipótese de desprezar os refugiados sírios, mas eles preferiram ir para
a Alemanha. Contudo sinto que agora temos uma nova oportunidade com os
emigrantes brasileiros, sinto que esses serão perfeitos para nós. Parece que
estão um pouco por todo o país e nós já temos rótulos prontos para eles: os
homens são preguiçosos e as mulheres dissolutas.
Se calhar, é por haver tão pouco racismo em Portugal que nos dedicamos a pesquisar os casos estrangeiros. Se calhar é por isso que há tanto interesse no cadastro de George Floyd.
O raciocínio é simples
de deduzir: “este preto também não devia ser flor que se cheire”. Claro, morre
uma pessoa e vamos logo verificar o seu cadastro, a ver se ela merecia estar cá
a consumir oxigénio. Seria assim se fosse branco? Não sei dizer porque a
polícia não costuma matar brancos.
É curioso que Ihor Homeniuk não tenha suscitado o mesmo interesse de Floyd.
Se calhar é porque o
nome é difícil de escrever. Pronto, é compreensível também ninguém vai agora
aprender uma língua nova só para acompanhar um caso que devia envergonhar todos
os portugueses.
Para terminar, não que
o assunto esteja encerrado, ninguém acha, nem que seja ligeiramente, estranho
que existam tão poucos deputados não brancos na AR? Há quase meio século que
não somos racistas e só tivemos 9 deputados não brancos? Poderíamos fazer o
mesmo tipo de observações para as universidades, para a televisão, para as
redações dos jornais ou para os quadros de topo das principais empresas
portuguesas. Podíamos fazer observações por declaração de rendimentos e por
tipo de habitação (aqui se o INE tivesse colaborado com uma pergunta sobre
etnia nos censos, seria mais fácil). Podíamos fazer tudo isso para no fim fazer
de novo a pergunta: Portugal não é racista?

