Confesso que sou um grande apreciador de anúncios de emprego. Gosto da originalidade, da clareza da linguagem e, sobretudo, gosto do descaramento.
Obviamente que
trabalhos deste calibre são feitos por profissionais. Se repararmos bem, vemos
que a maioria das ofertas são colocadas por empresas de recrutamento. Assim,
para saber que estamos perante um bom anúncio de emprego, há que estar atento ao
preenchimento de certos requisitos. Eles são transversais a todas as ofertas,
seja para administrativo, seja para carpinteiro:
- “Experiência
anterior em funções similares”;
- “Dinamismo,
proatividade e espírito de iniciativa”;
- “Sentido de
responsabilidade e autonomia”;
- “Conhecimentos
de informática na ótica do utilizador”.
Correndo o risco
de me contradizer, devo admitir que os três primeiros itens me causam dúvidas.
O primeiro suscita-me dúvidas porque é muitas vezes colocado em anúncios que
procuram estagiários e, tanto quanto eu sei, o estagiário é alguém que precisa
fazer um estágio para ganhar experiência. O segundo ponto causa-me estranheza
porque não sei dizer a diferença entre as palavras dinamismo proatividade e
iniciativa (e o dicionário também não ajuda). Em relação ao terceiro ponto, eu
compreendo que queiram sentido de responsabilidade, mas quanto à autonomia não
sei se é outra forma de pedir proatividade ou a maneira deles dizerem para não
dar ouvidos ao meu chefe. Conhecimentos de informática na ótica do utilizador,
significa que querem um candidato com menos de 50 anos de idade.
Características
como “flexibilidade, resiliência e capacidade de lidar com a pressão” ainda são
bastante procuradas, mas já não tanto como nos tempos da troika. Deve ser
porque hoje em dia as pessoas acham menos piada ao horário surpresa (é o que eu
chamo àquele horário em que nunca sabemos quando vamos chegar a casa) e à
chamada do chefe ao fim de semana para ver aquele email que tem de ser tratado
antes de segunda-feira.
Outra coisa
interessante é que os anúncios para empregos nas áreas de finanças e
informática são quase sempre colocados em inglês, mas nos anúncios para guia
turístico isso acontece muito menos vezes. Também gosto de anúncios para “secretária/o
administrativo/a” (portanto, o género do candidato não é importante), que depois
colocam toda a descrição do perfil pretendido no feminino, denunciando assim
que procuram uma mulher com “apresentação cuidada”.
Talvez seja por
causa desta ambição da parte do empregador que as pessoas mentem tanto nos seus
currículos. Não sei se já repararam, mas toda a gente fala um inglês fluente,
não há ninguém com bons conhecimentos, muito menos há quem tenha um nível
intermédio. Dinâmico, responsável e proativo não há ninguém que não seja.
Quanto à apresentação cuidada, é costume o candidato não se referir a ela que é
de mau tom, embora haja quem opte por colocar uma foto exageradamente grande e
sorridente no currículo, o que pode indiciar que o candidato se considera
bonito.
Definitivamente,
a minha parte favorita dos anúncios de emprego é aquele final em que nos
informam que teremos a “oportunidade de integrar uma equipa jovem e dinâmica”. Fico
sempre fascinado como é que, num país tão envelhecido como Portugal, não existe
nenhuma equipa que não seja jovem e dinâmica. Porém, a minha avó quando sabe do
falecimento de alguém com menos de 85 diz sempre: “não era muito velho”,
portanto, talvez em Portugal se seja jovem até aos 50.