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terça-feira, 13 de julho de 2021

ANTIGAMENTE NÃO ERA NADA DISTO

 

Desde a espécie humana aprendeu a comunicar que as gerações mais velhas se ocupam, para bem do seu ego, a explicar àqueles que as sucedem que no seu tempo é que era bom. Todos os motivos são bons para ditar a sentença, seja a falta de reverência de um jovem perante o ancião que quer furar a fila do pão, seja o corriqueiro passeio de dois homens de mão dada.

Pois a mim parece-me que nunca, em tempo algum, existiu esse lugar onde são todos irrepreensivelmente bem-educados, estritamente heterossexuais e muitíssimo castos.

Penso que não é segredo para ninguém que na antiguidade a prostituição, a homossexualidade, a poligamia e, às vezes, até o incesto era relativamente bem aceite, dependendo dos lugares, claro. O que pode ser mais surpreendente, para alguns, é que na Idade Média isso também era comum e bem aceite: a Lisboa de 1147 era descrita como lugar de liberdade religiosa e de costumes, lugar onde acorriam os homens mais depravados, “viveiro de toda a licenciosidade e imundície”[1]. Na sociedade andaluz da mesma época também se recusava a castidade, assim como eram toleradas as relações extraconjugais e a homossexualidade. A poligamia e a concubinagem predominavam no seio da aristocracia. Não faltavam poemas de louvor às donzelas, nem aos copeiros que serviam vinho nos banquetes e orgias.[2]

No cristão Portugal do século XIV, o sexo antes do casamento era a regra e, melhor que isso, eram os casamentos a furto (que mais não eram que uniões de facto). Apesar da igreja condenar a prática, acabava por se ver obrigada a validar as uniões, sob pena de perda de fiéis. Para Oliveira Marques, a Idade Média será a época mais fecunda de sempre em adultérios, mesmo que estes fossem severamente punidos pela lei.[3]

Dentro da hipocrisia geral da época, a prostituição era não só tolerada como até legal.

“Por vezes, as leis do tempo distinguem as «mancebas solteiras» das «putas caladas»: as primeiras seriam as que viviam e trabalhavam em bordéis, nas ruas ou nos bairros de prostituição, as segundas talvez as que iam a casa ou recebiam em sua casa, de modo um pouco mais clandestino. […]

As prostitutas eram marginais? Se só puder responder sim ou não, respondo convictamente que não. A prostituição não era proibida. Costuma dizer-se que era tolerada. Eu iria mais longe: era aceite e até tributada. Uma lei de D. Dinis ordena «que daqui em diante que nom levassem das putas o soldo assi como suiam [costumam] levar»; e as prostitutas que fossem trabalhar para a feira da Guarda, pelo S. João, deveriam pagar dois soldos ou um par de pássaros. Uma ocupação fiscalmente tributada é uma ocupação legal e admitida.”[4]    

Para quem ainda não esteja totalmente convencido que dantes era exatamente como agora, aconselho a leitura do curto artigo de Isabel Drummond Braga: “Ser Travesti em Portugal no século XVI”. Nele podemos ver o caso de uma mulher que, de noite, se vestiu de homem e de um homem que, na véspera de Natal, se vestiu de mulher. Ambos foram condenados a multas de dois ou três mil réis.

Para casos mais recentes podem perguntar aos vossos avós, mas eles vão dizer: “Antigamente não havia nada disso”.

Referências

Duarte, L. M. (2011). Marginalidade e Marginais. Em J. (. Mattoso, História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (pp. 170-196). Porto: Temas e Debates.

Marques, J. S. (1987). Nova História de Portugal - Portugal na Crise dos Século XIV e XV. Lisboa: Presença.

Marques, J. S. (1993). Nova História de Portugal - Portugal das Invasões Germânicas à "Reconquista". Lisboa: Presença. 


[1] (Marques, 1993, p. 242)

[2] Idem

[3] (Marques, Nova História de Portugal - Portugal na Crise dos Século XIV e XV, 1987, pp. 486-488)

[4] (Duarte, 2011, pp. 178-179)

PORTUGAL NÃO É RACISTA

 

Não há ninguém em Portugal que nunca tenha ouvido esta frase, ou variantes da mesma. Afinal de contas, fomos o primeiro país do mundo a abolir a escravatura, não é? Não, não é bem isso. Em 1761 é emitido um alvará que declara livres todos os escravos que chegassem a Portugal, mas não liberta os escravos que já estavam no território nem os filhos que estes pudessem vir a ter. Além disso, nas colónias a escravatura continuou pujante por muito tempo, sendo abolida apenas em 1869, 62 anos depois da Inglaterra. E para provar a simpatia do povo lusitano enquanto colonizador, mantivemos os trabalhos forçados nas colónias até ao ano da graça de 1961. Realmente, a nossa colonização era mesmo boazinha, somos uns heróis dos direitos humanos.

“Quer dizer, pode haver algum racismo, mas não é nada como nos Estados Unidos”. Nos Estados Unidos discute-se o racismo e combate-se o racismo, parece-me que ao reconhecer a sua existência eles estão um passo à nossa frente. Talvez seja esse o problema: o povo português tem poucas oportunidades de expressar o seu racismo, há poucos negros em Portugal e vivem sobretudo na grande Lisboa. O resto do país tem de se entreter a inventar histórias sobre chineses canibais, sobre ciganos ladrões e pouco mais. No início do milénio ainda houve a esperança de se poder odiar os ucranianos – mais escolarizados que nós –, mas parece que esses mudaram de ideias em relação a vir para Portugal (o assassinato de Ihor Homeniuk – que obviamente é um caso isolado porque, na maioria dos casos, os espancamentos não resultam em morte – só veio confirmar que é melhor escolher outro destino). Depois houve a hipótese de desprezar os refugiados sírios, mas eles preferiram ir para a Alemanha. Contudo sinto que agora temos uma nova oportunidade com os emigrantes brasileiros, sinto que esses serão perfeitos para nós. Parece que estão um pouco por todo o país e nós já temos rótulos prontos para eles: os homens são preguiçosos e as mulheres dissolutas.

Se calhar, é por haver tão pouco racismo em Portugal que nos dedicamos a pesquisar os casos estrangeiros. Se calhar é por isso que há tanto interesse no cadastro de George Floyd.



O raciocínio é simples de deduzir: “este preto também não devia ser flor que se cheire”. Claro, morre uma pessoa e vamos logo verificar o seu cadastro, a ver se ela merecia estar cá a consumir oxigénio. Seria assim se fosse branco? Não sei dizer porque a polícia não costuma matar brancos.

É curioso que Ihor Homeniuk não tenha suscitado o mesmo interesse de Floyd.



Se calhar é porque o nome é difícil de escrever. Pronto, é compreensível também ninguém vai agora aprender uma língua nova só para acompanhar um caso que devia envergonhar todos os portugueses.

Para terminar, não que o assunto esteja encerrado, ninguém acha, nem que seja ligeiramente, estranho que existam tão poucos deputados não brancos na AR? Há quase meio século que não somos racistas e só tivemos 9 deputados não brancos? Poderíamos fazer o mesmo tipo de observações para as universidades, para a televisão, para as redações dos jornais ou para os quadros de topo das principais empresas portuguesas. Podíamos fazer observações por declaração de rendimentos e por tipo de habitação (aqui se o INE tivesse colaborado com uma pergunta sobre etnia nos censos, seria mais fácil). Podíamos fazer tudo isso para no fim fazer de novo a pergunta: Portugal não é racista?

Pobres

     Eu não tenho nada contra pobres, até tenho amigos que são. O que eu não gosto é de os ver a contar os tostões para pagar a conta do sup...