terça-feira, 13 de julho de 2021

PORTUGAL NÃO É RACISTA

 

Não há ninguém em Portugal que nunca tenha ouvido esta frase, ou variantes da mesma. Afinal de contas, fomos o primeiro país do mundo a abolir a escravatura, não é? Não, não é bem isso. Em 1761 é emitido um alvará que declara livres todos os escravos que chegassem a Portugal, mas não liberta os escravos que já estavam no território nem os filhos que estes pudessem vir a ter. Além disso, nas colónias a escravatura continuou pujante por muito tempo, sendo abolida apenas em 1869, 62 anos depois da Inglaterra. E para provar a simpatia do povo lusitano enquanto colonizador, mantivemos os trabalhos forçados nas colónias até ao ano da graça de 1961. Realmente, a nossa colonização era mesmo boazinha, somos uns heróis dos direitos humanos.

“Quer dizer, pode haver algum racismo, mas não é nada como nos Estados Unidos”. Nos Estados Unidos discute-se o racismo e combate-se o racismo, parece-me que ao reconhecer a sua existência eles estão um passo à nossa frente. Talvez seja esse o problema: o povo português tem poucas oportunidades de expressar o seu racismo, há poucos negros em Portugal e vivem sobretudo na grande Lisboa. O resto do país tem de se entreter a inventar histórias sobre chineses canibais, sobre ciganos ladrões e pouco mais. No início do milénio ainda houve a esperança de se poder odiar os ucranianos – mais escolarizados que nós –, mas parece que esses mudaram de ideias em relação a vir para Portugal (o assassinato de Ihor Homeniuk – que obviamente é um caso isolado porque, na maioria dos casos, os espancamentos não resultam em morte – só veio confirmar que é melhor escolher outro destino). Depois houve a hipótese de desprezar os refugiados sírios, mas eles preferiram ir para a Alemanha. Contudo sinto que agora temos uma nova oportunidade com os emigrantes brasileiros, sinto que esses serão perfeitos para nós. Parece que estão um pouco por todo o país e nós já temos rótulos prontos para eles: os homens são preguiçosos e as mulheres dissolutas.

Se calhar, é por haver tão pouco racismo em Portugal que nos dedicamos a pesquisar os casos estrangeiros. Se calhar é por isso que há tanto interesse no cadastro de George Floyd.



O raciocínio é simples de deduzir: “este preto também não devia ser flor que se cheire”. Claro, morre uma pessoa e vamos logo verificar o seu cadastro, a ver se ela merecia estar cá a consumir oxigénio. Seria assim se fosse branco? Não sei dizer porque a polícia não costuma matar brancos.

É curioso que Ihor Homeniuk não tenha suscitado o mesmo interesse de Floyd.



Se calhar é porque o nome é difícil de escrever. Pronto, é compreensível também ninguém vai agora aprender uma língua nova só para acompanhar um caso que devia envergonhar todos os portugueses.

Para terminar, não que o assunto esteja encerrado, ninguém acha, nem que seja ligeiramente, estranho que existam tão poucos deputados não brancos na AR? Há quase meio século que não somos racistas e só tivemos 9 deputados não brancos? Poderíamos fazer o mesmo tipo de observações para as universidades, para a televisão, para as redações dos jornais ou para os quadros de topo das principais empresas portuguesas. Podíamos fazer observações por declaração de rendimentos e por tipo de habitação (aqui se o INE tivesse colaborado com uma pergunta sobre etnia nos censos, seria mais fácil). Podíamos fazer tudo isso para no fim fazer de novo a pergunta: Portugal não é racista?

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