Desde a espécie
humana aprendeu a comunicar que as gerações mais velhas se ocupam, para bem do
seu ego, a explicar àqueles que as sucedem que no seu tempo é que era bom. Todos
os motivos são bons para ditar a sentença, seja a falta de reverência de um
jovem perante o ancião que quer furar a fila do pão, seja o corriqueiro passeio
de dois homens de mão dada.
Pois a mim
parece-me que nunca, em tempo algum, existiu esse lugar onde são todos
irrepreensivelmente bem-educados, estritamente heterossexuais e muitíssimo
castos.
Penso que não é
segredo para ninguém que na antiguidade a prostituição, a homossexualidade, a
poligamia e, às vezes, até o incesto era relativamente bem aceite, dependendo
dos lugares, claro. O que pode ser mais surpreendente, para alguns, é que na
Idade Média isso também era comum e bem aceite: a Lisboa de 1147 era descrita
como lugar de liberdade religiosa e de costumes, lugar onde acorriam os homens
mais depravados, “viveiro de toda a licenciosidade e imundície”[1].
Na sociedade andaluz da mesma época também se recusava a castidade, assim como
eram toleradas as relações extraconjugais e a homossexualidade. A poligamia e a
concubinagem predominavam no seio da aristocracia. Não faltavam poemas de
louvor às donzelas, nem aos copeiros que serviam vinho nos banquetes e orgias.[2]
No cristão
Portugal do século XIV, o sexo antes do casamento era a regra e, melhor que
isso, eram os casamentos a furto (que mais não eram que uniões de facto).
Apesar da igreja condenar a prática, acabava por se ver obrigada a validar as
uniões, sob pena de perda de fiéis. Para Oliveira Marques, a Idade Média será a
época mais fecunda de sempre em adultérios, mesmo que estes fossem severamente
punidos pela lei.[3]
Dentro da
hipocrisia geral da época, a prostituição era não só tolerada como até legal.
“Por vezes, as leis do tempo distinguem as «mancebas
solteiras» das «putas caladas»: as primeiras seriam as que viviam e trabalhavam
em bordéis, nas ruas ou nos bairros de prostituição, as segundas talvez as que
iam a casa ou recebiam em sua casa, de modo um pouco mais clandestino. […]
As prostitutas eram marginais? Se só puder responder
sim ou não, respondo convictamente que não. A prostituição não era proibida.
Costuma dizer-se que era tolerada. Eu iria mais longe: era aceite e até
tributada. Uma lei de D. Dinis ordena «que daqui em diante que nom levassem das
putas o soldo assi como suiam [costumam] levar»; e as prostitutas que fossem
trabalhar para a feira da Guarda, pelo S. João, deveriam pagar dois soldos ou
um par de pássaros. Uma ocupação fiscalmente tributada é uma ocupação legal e
admitida.”[4]
Para quem ainda
não esteja totalmente convencido que dantes era exatamente como agora,
aconselho a leitura do curto artigo de Isabel Drummond Braga: “Ser
Travesti em Portugal no século XVI”. Nele podemos ver o caso de uma mulher
que, de noite, se vestiu de homem e de um homem que, na véspera de Natal, se
vestiu de mulher. Ambos foram condenados a multas de dois ou três mil réis.
Para casos mais
recentes podem perguntar aos vossos avós, mas eles vão dizer: “Antigamente não
havia nada disso”.
Duarte, L.
M. (2011). Marginalidade e Marginais. Em J. (. Mattoso, História da Vida
Privada em Portugal - A Idade Média (pp. 170-196). Porto: Temas e
Debates.
Marques, J. S. (1987). Nova História de Portugal
- Portugal na Crise dos Século XIV e XV. Lisboa: Presença.
Marques, J. S. (1993). Nova História de Portugal - Portugal das Invasões Germânicas à "Reconquista". Lisboa: Presença.
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