segunda-feira, 12 de julho de 2021

Anúncios de Emprego

Confesso que sou um grande apreciador de anúncios de emprego. Gosto da originalidade, da clareza da linguagem e, sobretudo, gosto do descaramento.

Obviamente que trabalhos deste calibre são feitos por profissionais. Se repararmos bem, vemos que a maioria das ofertas são colocadas por empresas de recrutamento. Assim, para saber que estamos perante um bom anúncio de emprego, há que estar atento ao preenchimento de certos requisitos. Eles são transversais a todas as ofertas, seja para administrativo, seja para carpinteiro:

- “Experiência anterior em funções similares”;

- “Dinamismo, proatividade e espírito de iniciativa”;

- “Sentido de responsabilidade e autonomia”;

- “Conhecimentos de informática na ótica do utilizador”.

Correndo o risco de me contradizer, devo admitir que os três primeiros itens me causam dúvidas. O primeiro suscita-me dúvidas porque é muitas vezes colocado em anúncios que procuram estagiários e, tanto quanto eu sei, o estagiário é alguém que precisa fazer um estágio para ganhar experiência. O segundo ponto causa-me estranheza porque não sei dizer a diferença entre as palavras dinamismo proatividade e iniciativa (e o dicionário também não ajuda). Em relação ao terceiro ponto, eu compreendo que queiram sentido de responsabilidade, mas quanto à autonomia não sei se é outra forma de pedir proatividade ou a maneira deles dizerem para não dar ouvidos ao meu chefe. Conhecimentos de informática na ótica do utilizador, significa que querem um candidato com menos de 50 anos de idade.

Características como “flexibilidade, resiliência e capacidade de lidar com a pressão” ainda são bastante procuradas, mas já não tanto como nos tempos da troika. Deve ser porque hoje em dia as pessoas acham menos piada ao horário surpresa (é o que eu chamo àquele horário em que nunca sabemos quando vamos chegar a casa) e à chamada do chefe ao fim de semana para ver aquele email que tem de ser tratado antes de segunda-feira.

Outra coisa interessante é que os anúncios para empregos nas áreas de finanças e informática são quase sempre colocados em inglês, mas nos anúncios para guia turístico isso acontece muito menos vezes. Também gosto de anúncios para “secretária/o administrativo/a” (portanto, o género do candidato não é importante), que depois colocam toda a descrição do perfil pretendido no feminino, denunciando assim que procuram uma mulher com “apresentação cuidada”.

Talvez seja por causa desta ambição da parte do empregador que as pessoas mentem tanto nos seus currículos. Não sei se já repararam, mas toda a gente fala um inglês fluente, não há ninguém com bons conhecimentos, muito menos há quem tenha um nível intermédio. Dinâmico, responsável e proativo não há ninguém que não seja. Quanto à apresentação cuidada, é costume o candidato não se referir a ela que é de mau tom, embora haja quem opte por colocar uma foto exageradamente grande e sorridente no currículo, o que pode indiciar que o candidato se considera bonito.

Definitivamente, a minha parte favorita dos anúncios de emprego é aquele final em que nos informam que teremos a “oportunidade de integrar uma equipa jovem e dinâmica”. Fico sempre fascinado como é que, num país tão envelhecido como Portugal, não existe nenhuma equipa que não seja jovem e dinâmica. Porém, a minha avó quando sabe do falecimento de alguém com menos de 85 diz sempre: “não era muito velho”, portanto, talvez em Portugal se seja jovem até aos 50.

  

domingo, 11 de julho de 2021

Avaliação por Exame Final

 

Já entramos na terceira década do século XXI e a avaliação através de exame final continua a ser muito apreciada nas universidades portuguesas, tanto por estudantes quanto por professores, sobretudo na área de humanidades. De facto, este método permite ao estudante levar a cabo um dos seus desportos favoritos – a procrastinação – e ao professor permite salvar a natureza, reciclando exames de anos anteriores.

A escolha desta forma de avaliação manifesta-se no decorrer do semestre. Na melhor das hipóteses, o docente leva uma apresentação PowerPoint (preparada com uma antecedência mínima de 5 anos) e dedica-se a discorrer sobre temas que domina, ao mesmo tempo que faz apartes jocosos relativamente à atualidade política, de preferência salientando o quão ignorante é o ministro e quão douto é o professor. Na pior das hipóteses, o professor doutor leva consigo umas folhas de papel A5 envelhecidas em cascos de carvalho e começa a lê-las em voz alta, na mais perfeita cadência, ao mesmo tempo que faz apartes jocosos sobre a atualidade política e demonstra como é grande a sua sapiência, comparada com a daqueles que nos governam.

Do lado do discípulo, a coisa também corre de feição. Na primeira aula, perguntará se o professor pode enviar o PowerPoint por correio eletrónico, assim dispensa-se de tirar apontamentos, coisa que o poderia distrair do seu dever primordial: organizar a praxe e sobreviver à praxe. No caso improvável de o mestre se recusar a fornecer o precioso ficheiro ou se este ainda não tiver sucumbido esse instrumento do demónio – o computador –, então o esforçado jovem será forçado a ir à associação de estudantes ver se se pode arranjar apontamentos de antigos camaradas. A associação de estudantes não lhe falhará e, em princípio, os apontamentos não terão muitos erros, apenas a soma dos lapsos do professor com os equívocos do aluno (se os apontamentos já forem, eles próprios, de segunda mão, então deve-se elevar o resultado ao quadrado).

Quanto à lição, nós sabemos que não se alterou, afinal se há coisa que é imutável é a ciência. Já que se deu ao trabalho de ir até à associação, o estudante também leva os exames de anos anteriores para assim poder preparar o seu estudo: se for conservador preparará todas as questões, se for mais arrojado arriscará preparar apenas algumas, sabendo que ainda tem a época de recurso.

Finalmente chega o final do semestre, para o docente a operação é simples – basta tirar um exame do baú –, para o discente é aqui que a coisa aperta. O jovem estudante achou que uma semana bastava para devorar todo o conhecimento da cadeira. Deglutiu a matéria, mas não digeriu bem, por isso vomita tudo na folha de exame sem qualquer critério, passando assim a bola para o velho mestre. Agora cabe ao professor decidir se despejar na folha de exame uma caterva de palavras vagamente relacionadas com o que foi perguntado é suficiente ou se é melhor repetir o suplício. Sabemos o que é melhor para os dois.

No fim de tudo, e sobretudo se o jovem decidir que não vale a pena fazer um mestrado (não é que não haja quem se atreva a fazer avaliações por exame no mestrado, mas pronto), teremos o prazer de conviver e trabalhar com um Dr. que possui uns pedacinhos de ciência a boiar em álcool e na mulher gorda. Claro que a culpa é exclusivamente do processo de Bolonha.        

Pobres

     Eu não tenho nada contra pobres, até tenho amigos que são. O que eu não gosto é de os ver a contar os tostões para pagar a conta do sup...