quarta-feira, 14 de julho de 2021

Transferências Imaginárias

Durante aquele curto período do ano em que não há futebol, assistimos à maravilhosa incursão dos jornais desportivos na literatura de fantasia. Como nestes diários só se fala de futebol, e não há futebol, é preciso inventar futebol. Os mais conservadores transferem os melhores jogadores da época passada para os suspeitos do costume, os mais arrojados procuram as estrelas em fim de contrato para anunciar a sua iminente contratação por parte de Porto ou Benfica.

Quando passa tempo suficiente sem um desenlace no negócio imaginário, os jornalistas e os seus amigos comentadores apelidam a sua criação de novela. Diga-se aqui, que algumas novelas são baseadas em histórias verídicas e umas até têm finais felizes, mas o que aborrece é que, aqueles que anunciam estar em posse de informações confidenciais, não parecem ter mais sucesso que os outros a adivinhar o final da novela. Às vezes acertam, mas eu também vou acertar no Euromilhões quando me dedicar a jogar todas as 139 838 160 combinações possíveis.

Não há dúvida que os “especialistas” do futebol são mesmo exaustivos nas suas análises. Dizem-nos qual será o salário bruto e o líquido, se forem muito minuciosos – e são – ainda nos dizem de que forma os jogadores poderão poupar nos impostos. Ninguém se sente à vontade para dizer quanto é que ganha, mas para falar do salário dos outros não faltam candidatos.

Para quem não gosta da versão escrita das novelas do mercado de transferências, há a versão para televisão, que normalmente passa ao fim da tarde nos canais de notícias. Aí os adeptos mais entusiasmados podem ver o seu clube comprar e vender jogadores a ritmo de sapateado. Já aconteceu de um jogador (Lucas Veríssimo) assinar primeiro pelo Benfica, depois estar quase certo no Porto, voltando a ser jogador do Benfica.

Esperemos que o futebol volte depressa porque o meu coração não aguenta tanta emoção!      

terça-feira, 13 de julho de 2021

ANTIGAMENTE NÃO ERA NADA DISTO

 

Desde a espécie humana aprendeu a comunicar que as gerações mais velhas se ocupam, para bem do seu ego, a explicar àqueles que as sucedem que no seu tempo é que era bom. Todos os motivos são bons para ditar a sentença, seja a falta de reverência de um jovem perante o ancião que quer furar a fila do pão, seja o corriqueiro passeio de dois homens de mão dada.

Pois a mim parece-me que nunca, em tempo algum, existiu esse lugar onde são todos irrepreensivelmente bem-educados, estritamente heterossexuais e muitíssimo castos.

Penso que não é segredo para ninguém que na antiguidade a prostituição, a homossexualidade, a poligamia e, às vezes, até o incesto era relativamente bem aceite, dependendo dos lugares, claro. O que pode ser mais surpreendente, para alguns, é que na Idade Média isso também era comum e bem aceite: a Lisboa de 1147 era descrita como lugar de liberdade religiosa e de costumes, lugar onde acorriam os homens mais depravados, “viveiro de toda a licenciosidade e imundície”[1]. Na sociedade andaluz da mesma época também se recusava a castidade, assim como eram toleradas as relações extraconjugais e a homossexualidade. A poligamia e a concubinagem predominavam no seio da aristocracia. Não faltavam poemas de louvor às donzelas, nem aos copeiros que serviam vinho nos banquetes e orgias.[2]

No cristão Portugal do século XIV, o sexo antes do casamento era a regra e, melhor que isso, eram os casamentos a furto (que mais não eram que uniões de facto). Apesar da igreja condenar a prática, acabava por se ver obrigada a validar as uniões, sob pena de perda de fiéis. Para Oliveira Marques, a Idade Média será a época mais fecunda de sempre em adultérios, mesmo que estes fossem severamente punidos pela lei.[3]

Dentro da hipocrisia geral da época, a prostituição era não só tolerada como até legal.

“Por vezes, as leis do tempo distinguem as «mancebas solteiras» das «putas caladas»: as primeiras seriam as que viviam e trabalhavam em bordéis, nas ruas ou nos bairros de prostituição, as segundas talvez as que iam a casa ou recebiam em sua casa, de modo um pouco mais clandestino. […]

As prostitutas eram marginais? Se só puder responder sim ou não, respondo convictamente que não. A prostituição não era proibida. Costuma dizer-se que era tolerada. Eu iria mais longe: era aceite e até tributada. Uma lei de D. Dinis ordena «que daqui em diante que nom levassem das putas o soldo assi como suiam [costumam] levar»; e as prostitutas que fossem trabalhar para a feira da Guarda, pelo S. João, deveriam pagar dois soldos ou um par de pássaros. Uma ocupação fiscalmente tributada é uma ocupação legal e admitida.”[4]    

Para quem ainda não esteja totalmente convencido que dantes era exatamente como agora, aconselho a leitura do curto artigo de Isabel Drummond Braga: “Ser Travesti em Portugal no século XVI”. Nele podemos ver o caso de uma mulher que, de noite, se vestiu de homem e de um homem que, na véspera de Natal, se vestiu de mulher. Ambos foram condenados a multas de dois ou três mil réis.

Para casos mais recentes podem perguntar aos vossos avós, mas eles vão dizer: “Antigamente não havia nada disso”.

Referências

Duarte, L. M. (2011). Marginalidade e Marginais. Em J. (. Mattoso, História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (pp. 170-196). Porto: Temas e Debates.

Marques, J. S. (1987). Nova História de Portugal - Portugal na Crise dos Século XIV e XV. Lisboa: Presença.

Marques, J. S. (1993). Nova História de Portugal - Portugal das Invasões Germânicas à "Reconquista". Lisboa: Presença. 


[1] (Marques, 1993, p. 242)

[2] Idem

[3] (Marques, Nova História de Portugal - Portugal na Crise dos Século XIV e XV, 1987, pp. 486-488)

[4] (Duarte, 2011, pp. 178-179)

PORTUGAL NÃO É RACISTA

 

Não há ninguém em Portugal que nunca tenha ouvido esta frase, ou variantes da mesma. Afinal de contas, fomos o primeiro país do mundo a abolir a escravatura, não é? Não, não é bem isso. Em 1761 é emitido um alvará que declara livres todos os escravos que chegassem a Portugal, mas não liberta os escravos que já estavam no território nem os filhos que estes pudessem vir a ter. Além disso, nas colónias a escravatura continuou pujante por muito tempo, sendo abolida apenas em 1869, 62 anos depois da Inglaterra. E para provar a simpatia do povo lusitano enquanto colonizador, mantivemos os trabalhos forçados nas colónias até ao ano da graça de 1961. Realmente, a nossa colonização era mesmo boazinha, somos uns heróis dos direitos humanos.

“Quer dizer, pode haver algum racismo, mas não é nada como nos Estados Unidos”. Nos Estados Unidos discute-se o racismo e combate-se o racismo, parece-me que ao reconhecer a sua existência eles estão um passo à nossa frente. Talvez seja esse o problema: o povo português tem poucas oportunidades de expressar o seu racismo, há poucos negros em Portugal e vivem sobretudo na grande Lisboa. O resto do país tem de se entreter a inventar histórias sobre chineses canibais, sobre ciganos ladrões e pouco mais. No início do milénio ainda houve a esperança de se poder odiar os ucranianos – mais escolarizados que nós –, mas parece que esses mudaram de ideias em relação a vir para Portugal (o assassinato de Ihor Homeniuk – que obviamente é um caso isolado porque, na maioria dos casos, os espancamentos não resultam em morte – só veio confirmar que é melhor escolher outro destino). Depois houve a hipótese de desprezar os refugiados sírios, mas eles preferiram ir para a Alemanha. Contudo sinto que agora temos uma nova oportunidade com os emigrantes brasileiros, sinto que esses serão perfeitos para nós. Parece que estão um pouco por todo o país e nós já temos rótulos prontos para eles: os homens são preguiçosos e as mulheres dissolutas.

Se calhar, é por haver tão pouco racismo em Portugal que nos dedicamos a pesquisar os casos estrangeiros. Se calhar é por isso que há tanto interesse no cadastro de George Floyd.



O raciocínio é simples de deduzir: “este preto também não devia ser flor que se cheire”. Claro, morre uma pessoa e vamos logo verificar o seu cadastro, a ver se ela merecia estar cá a consumir oxigénio. Seria assim se fosse branco? Não sei dizer porque a polícia não costuma matar brancos.

É curioso que Ihor Homeniuk não tenha suscitado o mesmo interesse de Floyd.



Se calhar é porque o nome é difícil de escrever. Pronto, é compreensível também ninguém vai agora aprender uma língua nova só para acompanhar um caso que devia envergonhar todos os portugueses.

Para terminar, não que o assunto esteja encerrado, ninguém acha, nem que seja ligeiramente, estranho que existam tão poucos deputados não brancos na AR? Há quase meio século que não somos racistas e só tivemos 9 deputados não brancos? Poderíamos fazer o mesmo tipo de observações para as universidades, para a televisão, para as redações dos jornais ou para os quadros de topo das principais empresas portuguesas. Podíamos fazer observações por declaração de rendimentos e por tipo de habitação (aqui se o INE tivesse colaborado com uma pergunta sobre etnia nos censos, seria mais fácil). Podíamos fazer tudo isso para no fim fazer de novo a pergunta: Portugal não é racista?

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Anúncios de Emprego

Confesso que sou um grande apreciador de anúncios de emprego. Gosto da originalidade, da clareza da linguagem e, sobretudo, gosto do descaramento.

Obviamente que trabalhos deste calibre são feitos por profissionais. Se repararmos bem, vemos que a maioria das ofertas são colocadas por empresas de recrutamento. Assim, para saber que estamos perante um bom anúncio de emprego, há que estar atento ao preenchimento de certos requisitos. Eles são transversais a todas as ofertas, seja para administrativo, seja para carpinteiro:

- “Experiência anterior em funções similares”;

- “Dinamismo, proatividade e espírito de iniciativa”;

- “Sentido de responsabilidade e autonomia”;

- “Conhecimentos de informática na ótica do utilizador”.

Correndo o risco de me contradizer, devo admitir que os três primeiros itens me causam dúvidas. O primeiro suscita-me dúvidas porque é muitas vezes colocado em anúncios que procuram estagiários e, tanto quanto eu sei, o estagiário é alguém que precisa fazer um estágio para ganhar experiência. O segundo ponto causa-me estranheza porque não sei dizer a diferença entre as palavras dinamismo proatividade e iniciativa (e o dicionário também não ajuda). Em relação ao terceiro ponto, eu compreendo que queiram sentido de responsabilidade, mas quanto à autonomia não sei se é outra forma de pedir proatividade ou a maneira deles dizerem para não dar ouvidos ao meu chefe. Conhecimentos de informática na ótica do utilizador, significa que querem um candidato com menos de 50 anos de idade.

Características como “flexibilidade, resiliência e capacidade de lidar com a pressão” ainda são bastante procuradas, mas já não tanto como nos tempos da troika. Deve ser porque hoje em dia as pessoas acham menos piada ao horário surpresa (é o que eu chamo àquele horário em que nunca sabemos quando vamos chegar a casa) e à chamada do chefe ao fim de semana para ver aquele email que tem de ser tratado antes de segunda-feira.

Outra coisa interessante é que os anúncios para empregos nas áreas de finanças e informática são quase sempre colocados em inglês, mas nos anúncios para guia turístico isso acontece muito menos vezes. Também gosto de anúncios para “secretária/o administrativo/a” (portanto, o género do candidato não é importante), que depois colocam toda a descrição do perfil pretendido no feminino, denunciando assim que procuram uma mulher com “apresentação cuidada”.

Talvez seja por causa desta ambição da parte do empregador que as pessoas mentem tanto nos seus currículos. Não sei se já repararam, mas toda a gente fala um inglês fluente, não há ninguém com bons conhecimentos, muito menos há quem tenha um nível intermédio. Dinâmico, responsável e proativo não há ninguém que não seja. Quanto à apresentação cuidada, é costume o candidato não se referir a ela que é de mau tom, embora haja quem opte por colocar uma foto exageradamente grande e sorridente no currículo, o que pode indiciar que o candidato se considera bonito.

Definitivamente, a minha parte favorita dos anúncios de emprego é aquele final em que nos informam que teremos a “oportunidade de integrar uma equipa jovem e dinâmica”. Fico sempre fascinado como é que, num país tão envelhecido como Portugal, não existe nenhuma equipa que não seja jovem e dinâmica. Porém, a minha avó quando sabe do falecimento de alguém com menos de 85 diz sempre: “não era muito velho”, portanto, talvez em Portugal se seja jovem até aos 50.

  

domingo, 11 de julho de 2021

Avaliação por Exame Final

 

Já entramos na terceira década do século XXI e a avaliação através de exame final continua a ser muito apreciada nas universidades portuguesas, tanto por estudantes quanto por professores, sobretudo na área de humanidades. De facto, este método permite ao estudante levar a cabo um dos seus desportos favoritos – a procrastinação – e ao professor permite salvar a natureza, reciclando exames de anos anteriores.

A escolha desta forma de avaliação manifesta-se no decorrer do semestre. Na melhor das hipóteses, o docente leva uma apresentação PowerPoint (preparada com uma antecedência mínima de 5 anos) e dedica-se a discorrer sobre temas que domina, ao mesmo tempo que faz apartes jocosos relativamente à atualidade política, de preferência salientando o quão ignorante é o ministro e quão douto é o professor. Na pior das hipóteses, o professor doutor leva consigo umas folhas de papel A5 envelhecidas em cascos de carvalho e começa a lê-las em voz alta, na mais perfeita cadência, ao mesmo tempo que faz apartes jocosos sobre a atualidade política e demonstra como é grande a sua sapiência, comparada com a daqueles que nos governam.

Do lado do discípulo, a coisa também corre de feição. Na primeira aula, perguntará se o professor pode enviar o PowerPoint por correio eletrónico, assim dispensa-se de tirar apontamentos, coisa que o poderia distrair do seu dever primordial: organizar a praxe e sobreviver à praxe. No caso improvável de o mestre se recusar a fornecer o precioso ficheiro ou se este ainda não tiver sucumbido esse instrumento do demónio – o computador –, então o esforçado jovem será forçado a ir à associação de estudantes ver se se pode arranjar apontamentos de antigos camaradas. A associação de estudantes não lhe falhará e, em princípio, os apontamentos não terão muitos erros, apenas a soma dos lapsos do professor com os equívocos do aluno (se os apontamentos já forem, eles próprios, de segunda mão, então deve-se elevar o resultado ao quadrado).

Quanto à lição, nós sabemos que não se alterou, afinal se há coisa que é imutável é a ciência. Já que se deu ao trabalho de ir até à associação, o estudante também leva os exames de anos anteriores para assim poder preparar o seu estudo: se for conservador preparará todas as questões, se for mais arrojado arriscará preparar apenas algumas, sabendo que ainda tem a época de recurso.

Finalmente chega o final do semestre, para o docente a operação é simples – basta tirar um exame do baú –, para o discente é aqui que a coisa aperta. O jovem estudante achou que uma semana bastava para devorar todo o conhecimento da cadeira. Deglutiu a matéria, mas não digeriu bem, por isso vomita tudo na folha de exame sem qualquer critério, passando assim a bola para o velho mestre. Agora cabe ao professor decidir se despejar na folha de exame uma caterva de palavras vagamente relacionadas com o que foi perguntado é suficiente ou se é melhor repetir o suplício. Sabemos o que é melhor para os dois.

No fim de tudo, e sobretudo se o jovem decidir que não vale a pena fazer um mestrado (não é que não haja quem se atreva a fazer avaliações por exame no mestrado, mas pronto), teremos o prazer de conviver e trabalhar com um Dr. que possui uns pedacinhos de ciência a boiar em álcool e na mulher gorda. Claro que a culpa é exclusivamente do processo de Bolonha.        

Pobres

     Eu não tenho nada contra pobres, até tenho amigos que são. O que eu não gosto é de os ver a contar os tostões para pagar a conta do sup...